quarta-feira, 17 de maio de 2017

AURÉLIO DO Ó – O legado de competência e honradez reconhecidas de um homem de bem e do bem

Aurélio do Ó: morte quando ainda encontrava-se no vigor intelectual.

Um homem de bem e do bem.
Para além de seus muitos méritos profissionais, como físico e professor, isso é o mínimo que se pode dizer de Aurélio Leal Alves do Ó, de cuja morte, que o colheu ainda na plenitude de seu vigor intelectual, tomei conhecimento no último sábado, 13, em uma daquelas notícias que você jamais gostaria de receber. Às voltas com problemas de saúde, só agora estou em condições de fazer o doloroso registro.
Divergências pontuais à parte, e a despeito do rompimento tácito, ocorrido publicamente - que a mim deprimiu, até pelo motivo que lhe deu causa, com o agravante de que o imponderável da vida não nos deu tempo de ao menos tentarmos remediar as sequelas da inesperada escaramuça -, guardo de Aurélio a imagem construída na esteira de uma relação de 53 anos. Aurélio foi, para mim, um caro amigo, um irmão por adoção, com o qual relacionei-me desde os meus 12 anos, quando, nos idos de 1964 ele abrigou-se na casa da minha família, para escapar da ira dos verdugos do golpe militar, afetuosamente acolhido por meus pais, na extensão da amizade que o atou, ao longo da vida, ao saudoso Luiz Octávio, um dos meus irmãos mais velhos, um transgressor por excelência, que foi um dos mais refinados intelectuais de sua geração e cujo nome se confunde com a história recente do teatro paraense, cuja rebeldia o tornou um nome maldito pelos donos do poder. Como aos filhos, a ele era facultado cumprimentar minha mãe com um beijo no rosto, algo que representava, para os vitorianos padrões morais da época, uma concessão que traduzia um imenso bem-querer, o que fez dele, por assim dizer, um filho adotivo. Sua amizade mais estreita, é verdade, sempre foi com Luiz Octávio, com o qual compartilhou os sonhos libertários da juventude e a quem sempre admirou pela inquietação intelectual e pela comovente coragem moral. “Meu amigo” era o tratamento mútuo entre ambos, mutuamente solidários e leais um com o outro, em uma cumplicidade que só a amizade incondicional permite.
Um homem do sua época, que interiorizou as angústias legadas pelos tempos sombrios sob os quais viveu, por algum tempo, como tantos brasileiros, ele amargou o estigma da militância política da juventude. Para ingressar na UFPA, a Universidade Federal do Pará, por exemplo, precisou da intervenção enérgica do pai, “seu” Paulo, militar da Marinha, feita à sua revelia, diga-se. Após submeter-se e ser aprovado em um concurso público da UFPA, Aurélio sofreu um interdito proibitório do regime militar, determinado por razões ideológicas, que repetiu-se em uma segunda oportunidade, por conta da pecha de comunista que lhe era atribuída pela ditadura militar. Foi quando então entrou em cena “seu” Paulo, cujas idiossincrasias determinadas pelos rigores da formação castrense, com ênfase para o respeito a hierarquia, não o impediram de se insurgir contra a odiosa discriminação que novamente se abatia sobre o filho. Sem dar conhecimento prévio do seu ato a ninguém, movido pelo sentimento de indignação de um pai diante da injustiça sofrida pelo rebento, em carta a um dos poderosos da hora ele protestou contra o veto recorrente, porque, na sua visão, remetia a “um erro de juventude”, diluído no passado e pelo qual o filho já fora suficientemente penalizado. Pelo próprio Aurélio tomei conhecimento da existência de cópia da carta, porém a ela jamais tive acesso, respeitando um desejo dele, em seu peculiar apreço pela privacidade. A inconfidência, nessa altura, parece-me justificável, por ilustrar a atmosfera sufocante da época, sob a qual Aurélio pavimentou sua trajetória.
Sagaz, com um gosto literário e musical apurado, e sempre bem informado, por conta de uma vasta teia de relações, Aurélio surpreendia pelo perfil humanista, apesar de ser um profissional da área de ciências exatas, na qual navegou com reconhecida competência. Esse perfil intelectualmente eclético sempre fez dele um interlocutor extremamente prazeroso, inclusive pela irreverência, que brotava sem peias, na intimidade, particularmente quando estimulada pelo uísque, que saboreava com inocultável prazer. Como amigo, notabilizou-se pela lealdade, sem abdicar da franqueza, às vezes rude, inclusive quando falava de si próprio, privilégio que reservava para poucos. Jamais negou solidariedade a um amigo, como eu próprio pude constatar, quando ele, recém-separado, convidou-me para morar com ele, em seu apartamento, tão logo soube que eu também separava-me, sempre um momento delicado para qualquer um. Tratava-se da prazerosa rua de mão dupla, própria das amizades sinceras, sedimentadas sobretudo na eventual adversidade, como evidenciou na sua relação com Luiz Octávio.
Professor de sucessivas gerações, na UFPA e na rede estadual de ensino, com passagem marcante no histórico CEPC, o Colégio Estadual “Paes de Carvalho”, como físico Aurélio atuou no Hospital Ophir Loyola, acompanhando a árdua batalha pela sobrevida dos pacientes vítimas de câncer. Impossível para alguém, como ele, manter-se insensível ao drama humano dos pacientes e seus familiares, o que explica a atmosfera de angústia na qual costumava submergir. Comovia sua preocupação com o funcionamento do acelerador linear, e a dedicação com a qual continuava atuando, mesmo após a aposentadoria, tanto no “Ophir Loyola” como no Hospital Regional de Santarém. Os anos de estreita convivência com a ideia de finitude da vida não conseguiram embrutecê-lo, como permitia entrever ao falar de suas expectativas em relação ao Hospital Regional de Santarém. De resto, não se deixar contaminar pelos malfeitos que vicejam na UFPA é um atestado da sua idoneidade profissional.
Nesses momentos, como na lealdade aos amigos, emergia cristalino o homem de bem e do bem que foi Aurélio, com uma generosidade comovente, independentemente do seu mapa de crenças, que passou a rever nos últimos anos, o que acabou por nos colocar em rota de colisão, menos pelas discordâncias e mais pelo tom ácido que incorporou diante do contraditório, o que não elide suas inquestionáveis qualidades como ser humano. Virtudes que fizeram dele uma pessoa admirável, porque honrado e despojado da empáfia daqueles que se pretendem aspirantes a Deus. Que melhor legado pode almejar alguém deixar para os que ficam?
Como a vida não tem rascunho, diante do irremediável da morte física resta, como de sempre, o alento de que viver para quem fica não é morrer.
                                       

MISSA DE 7º DIA – A missa de sétimo dia de falecimento de Aurélio Leal Alves do Ó será nesta sexta-feira, 19, às 19h30, na Catedral da Sé.

Um comentário :

Anônimo disse...

É preciso amar as pessoas como se nada houvesse no dia seguinte. É preciso desarmar-se para amar em paz.